WineFuture – Discurso de Ryan Opaz em Logroño, Espanha

November 18th, 2009 |

Discurso do Ryan em forma escrita, sem qualquer das notas adicionais e informações que surgiram durante a conferência.

Quando Robert Parker começou sua newsletter em 1978, ninguém acreditava que um apreciador de fora do mundo do vinho poderia dizer qualquer coisa que valesse a pena ouvir sobre vinho. Então veio o ano de 1982 em Bordeaux e Parker ganhou o dia. Posso estar simplificando um pouco, mas o que ele estava fazendo na época era responder a um problema no mercado de vinhos de qualidade, que tinha conflitos de interesse e vendedores sem escrúpulos empurrando zurrapa com rótulos de vinhos de qualidade. Naquela época a indústria do vinho precisava de um abanão. Foi necessário que alguém se levantasse e falasse pelo publico consumidor de vinhos que começava a aparecer e queria entender e confiar no vinho que compravam.

Usando o mais simples e barato método de que dispunha na época para publicar qualquer conteúdo, Parker pediu um empréstimo de US$2000 à sua mãe e um mimeógrafo com o qual publicou a sua primeira edição do que conhecemos hoje como “The Wine Advocate“. Lutando para encontrar assinantes e conseguir viver daquilo, os seus primeiros dias desenham um surpreendente paralelo com a nova mídia do vinho de hoje.

Hoje as coisas precisam novamente de um abanão. Durante as últimas décadas, o consumidor comum foi ignorado. Não falo do consumidor de alto nível ou mesmo do geek de fim-de-semana, mas do consumidor que gosta de vinho, quer uma garrafa melhor e não se interessa pelo facto do vinho “ter terroir” ou 90+ pontos. Eles querem desfrutar o vinho pelo que é, um “lubrificante social” e, enquanto em alguns casos isso possa levar a um novo geek em potência, é mais provável que leve a algum tipo de marca ou lealdade a uma casta por um indivíduo que apenas procura relaxar após um longo dia de trabalho.

O problema é que os distribuidores, importadores e a imprensa estão todos tentando vender a mesma “treta” de que você precisa “conhecer vinho” para gostar de vinho. É o modelo “ensine primeiro, beba depois”, que eu acredito levar, muito frequentemente, a consumidores com medo do que eles podem fazer errado e, como resultado, eles acabam simplesmente comprando com base no preço e em como o rótulo se parece. Por quê? Por que são as únicas coisas que não lhes estão tentando dizer que eles não são espertos o suficiente para se deliciar com vinho. São os únicos indicadores da possível qualidade além da propaganda pendurada no gargalo dizendo que essa ou aquela pessoa pensam que este vinho tem gosto de uma determinada pontuação.

Hoje as coisas começaram a mudar. O consumidor tem escolhas, ou está começando a ter, e a internet está-nos a trazer essas escolhas. Gary Vaynerchuck é uma dessas escolhas. Ouço constantemente profissionais do vinho conversarem sobre como eles não aguentam escuta-lo e eles imaginam se ele sabe algo sobre o que está dizendo. “Como pode alguém ouvi-lo gritar daquela forma?” é o refrão comum. A verdade é que ele não se importa. Nós, “wine geeks” não somos o seu público. Não temos valor para ele. Nós somos observadores, invejosos por não termos visto os milhões de apreciadores de final-de-semana que estavam procurando por uma nova voz. Gary encontrou aqueles que não ligavam para o vinho a não ser para saber se ele combinava com o macarrão ou se eles poderiam impressionar a mulher que estavam levando para casa naquela noite. Ele fala a língua deles, uma que coloca o vinho entre as coisas da vida e não tenta separa-lo.

O que está acontecendo agora é incrível de se ver, os “guerreiros-de-fim-de-semana do vinho” estão começando a se importar. Estão começando a ouvir, mas fazem-no sem os estranhos termos de degustação que nós normalmente adoptamos. Eles fazem-no de uma maneira que faz sentido para eles e com a qual se conseguem relacionar. Eles são donos dessa nova conversa e a internet está facilitando isto. Sim, há uma transição para o nosso mundo, dos auto-declarados “geeks“, mas isso é simplesmente a “área cinza” que é possível ver em qualquer disciplina, em que o “apreciador” se transforma num “devoto”. No fim de contas, esses consumidores estão agora falando sobre vinho e comprando vinhos e estão fazendo-o com as ferramentas que eles usam para comunicar-se com seus círculos sociais no dia-a-dia.

O Facebook, que foi um site para encontrar colegas de escola, é agora um lugar onde as marcas estão a ser construídas. Indivíduos podem-se tornar “fãs” de marcas e criar grupos para suas castas predilectas. Por outro lado, o Twitter, uma ideia aparentemente ridícula, 140 caracteres sobre o que se está fazendo, tornou-se o ponto de partida para conversas faiscantes e novas ideias, sem mencionar um lugar onde a informação sobre que vinho comprar hoje à noite está sendo procurada. Não interessa o que você acha disso, é poderoso e importante.

Em outro formato, mais reconhecível para muitos de nós, temos sites com “redes sociais” de notas de degustação como o Adegga e o Cellartracker que estão permitindo aos consumidores compartilhar online os vinhos que têm e ver o que seus amigos estão bebendo. Essas notas de degustação “sociais” são ainda mais poderosas quando se olha para a forma com que o Google as indexa. Muitas vezes uma busca no Google por um vinho leva o consumidor a uma rede social de notas de degustação antes que ele encontre o website do produtor (se é que ele existe).

Essas simples redes e ferramentas de internet estão fazendo ondas significativas no mundo do vinho – e elas estão apenas em sua infância? Tome como exemplo o AVIN, um código único vinculado a cada vinho no mundo, similar ao ISBN para os livros. Hoje está a ser convertido num projecto “open source” para que toda a indústria do vinho possa beneficiar da sua utilidade e contribuir para seu sucesso. Muitas pessoas riem dessas ferramentas online, mas isso faz-me lembrar uma frase que encontrei online: “Este ‘telefone’ tem muitas limitações para ser seriamente considerado como um meio de comunicação. O aparelho inerentemente não tem valor para nós.” Essa foi a resposta da Western Union para a invenção do telefone.

Declarações ironicamente similares estão sendo feitas sobre os blogues hoje em dia. A verdade é que estamos a assistir a um desaparecimento das ferramentas de comunicação do passado, dando espaço a uma nova forma de olhar para o vinho:

Hoje vemos, novamente, o futuro.

Como antes quando as pessoas disseram que Parker nunca chegaria a lugar nenhum, ouvimos as mesmas vozes sobre os blogues. Tantas mentiras e conceitos errados cercam o mundo dos blogues que eu poderia passar os próximos dois dias desmentindo-os e não terminaria. Na última semana, 120 blogger´s ou “pretendentes a blogger´s” reuniram-se em Lisboa durante 3 dias para falar sobre vinho, a internet e para provar e discutir vinho. Havia uma fronteira indefinida entre repórteres da grande mídia, blogger´s de facto, produtores, PR´s, todos tentando aprender mais sobre esse mundo crescente. A realidade é que os blogues são os mimeógrafos de hoje e, ainda que qualquer pessoa possa iniciar um, é preciso talento e esforço para fazê-lo funcionar. Podem existir milhares de blogues, mas somente alguns trabalham duro o suficiente para brilhar. É também verdade que podemos não gostar do que estão escrevendo, mas pode isto ser diferente da mídia de hoje, em que toda cidadezinha tem vários jornais com lealdades contrastantes? Marcas inteligentes vão perceber isto e estão prestando cada vez mais atenção a eles.

Isto é o futuro, alguns diriam até mesmo o presente. Vá em frente e enterre sua cabeça na areia, finja que é uma modinha tola e que é só uma “fase”. A verdade é que qualquer aparência que a comunicação sobre vinho vá ter nos próximos anos, ela será diferente da de hoje. A sua escolha está entre adaptar-se e aproveitar a vantagem das oportunidades que oferece, ou sentar-se e reclamar e deixa-las passarem por si.

Os consumidores de hoje têm vozes. A internet deu-lhes vozes e essas vozes não são seus concorrentes ou inimigos, mas clientes, leitores, compradores e, por vezes, novos amigos.

Nosso trabalho como “escritores sobre vinho” e “educadores do vinho” hoje,  é tornar certo que esses consumidores recebam boa informação e uma oportunidade para aprender mais.

Nosso trabalho como produtores de vinho e marketer´s é aprender como essas novas ferramentas funcionam, para que você possa entrar nas conversas que estão acontecendo. As conversas acontecendo hoje estão por toda parte. Antes essas conversas ficavam nas casas das pessoas, nas festas, no bar na esquina, espalhando ignorância e mentiras sem uma forma de medir sua influência ou de corrigi-las. Hoje essas conversas são online. São pesquisáveis, contextualizadas. Mas, o mais importante, estão oferecendo a você uma chance de participar.

Mas a verdade de facto é que o consumidor é o crítico de amanhã. E no final, se eles não sabem de onde vem a Tempranillo, não interessa, eles sabem sim se gostam ou não do vinho. Como um grupo, eles agregaram-se a uma voz que é poderosa e ampla. Esses consumidores podem nunca ser os wine geeks instruídos que todos gostaríamos que fossem, mas eles serão os que vão comprar seus produtos e compartilhar os seus pensamentos com os amigos, exactamente como eles sempre fizeram. Se você não os ouvir… você perde. Se você escolher envolver-se com eles… você ganha.

Lembre-se de que vinho é conversa. As minhas garrafas favoritas foram compartilhadas com amigos, noite dentro, buscando a solução para todos os problemas do mundo. Na época em que abrimos aqueles vinhos, pontos, variétais, terroir, podem todos ter sido importantes, mas quando a última gota foi bebida, tudo o que interessava era a pessoa com quem eu os estava compartilhando. A conversa, “lubrificada” pelo líquido que todos nós amamos, é do que eu me recordo com mais carinho e a razão para abrir a garrafa. Hoje a internet é também uma conversa. Não é um monólogo, é um diálogo. Se você não está preparado para se envolver e conversar com o seu consumidor, esteja preparado para o desapontamento. O consumidor de hoje quer uma conversa… não, eles esperam uma conversa.

Hoje você pode conduzir suas próprias vendas, ao invés de esperar que o crítico o faça por você. Mas somente se você for honesto, aberto e realista. A internet não é um lugar para vender “treta”, é um lugar para ter um diálogo… entre e você irá vencer.

Obrigado,

Ryan Opaz

Traduzido por Bernardo Silveira.

Bernardo Silveira é formado em gastronomia e especializado em vinhos pelo Wine and Spirits Education Trust, instituição inglesa vinculada ao Institute of Masters of Wine. Hoje cursa em Londres o Diploma in Wines and Spirits e é diretor técnico da Zahil Importadora, em São Paulo. www.peripecias.com.br

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